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Estação II · Capítulo Dois

Poderia o universo ter causado a si mesmo?

Tempo de leitura: aprox. 6 minutos

Experimento mental

Para responder à primeira pergunta, sobre como o nosso universo pode ter surgido, imagine uma casa composta de tijolos, janelas, portas e um telhado. Nenhuma dessas partes surgiu por si mesma. Todas tiveram de ser obtidas e montadas. Assim, quando olhamos para uma casa, sabemos que ela não surgiu sozinha, mas que alguém de fora fez com que ela viesse a existir.

Pense agora no nosso universo, repleto de galáxias, estrelas, planetas, espaço e tempo, além de diversas leis da natureza. Afirmar que o universo criou a si mesmo seria como dizer que um livro se escreveu sozinho, sem autor, ou que uma casa poderia construir a si mesma, sem um construtor. Isso, evidentemente, não faz sentido.

Assim como uma casa precisa de um construtor e uma história precisa de um autor, o universo também deve ter uma primeira causa. Ele precisa de algo fora de si mesmo que o tenha criado. Caso contrário, o universo teria de ter existido antes de si mesmo para poder criar a si mesmo, o que é logicamente impossível.

Alguém poderia, porém, dizer: “Talvez o universo não tenha começo nem fim. Talvez ele exista desde sempre e não precise de uma primeira causa.”

À primeira vista, isso pode até parecer plausível. Mas uma análise mais atenta mostra que não é compatível com o que sabemos pela ciência e pela lógica.

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Primeiro ponto: a energia total do universo é finita

A primeira lei da termodinâmica afirma que a energia, dentro de um sistema isolado, não pode ser criada nem destruída. Ela só pode mudar de forma. Isso significa que a quantidade total de energia no universo permaneceu sempre a mesma desde o seu surgimento.

Se o universo não tivesse tido um começo, um tempo infinito já teria transcorrido até hoje. Nesse tempo, a energia utilizável diminuiria constantemente; por exemplo, o calor se distribui de forma cada vez mais uniforme. Portanto, se o universo existisse eternamente, toda a energia já teria se esgotado há muito tempo.

Em palavras simples: imagine o universo como um relógio movido a pilhas. A primeira lei da termodinâmica diz que as pilhas não podem ser recarregadas nem trocadas. Elas só podem perder potência com o tempo, enquanto o relógio funciona. Suponha que o relógio estivesse funcionando desde sempre. Então as pilhas já estariam vazias hoje.

No entanto, ainda vemos estrelas brilhando, planetas orbitando seus sóis, galáxias percorrendo o universo. Isso significa que o universo ainda está cheio de energia utilizável. Isso prova, de forma inequívoca, que o universo não pode existir desde a eternidade. Ele deve, portanto, ter um começo e uma causa.

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Segundo ponto: a segunda lei da termodinâmica confirma isso

A segunda lei da termodinâmica afirma que, em um sistema fechado, as coisas se tornam menos organizadas com o tempo e a energia que podemos utilizar desaparece lentamente.

Em termos mais simples: o calor sempre flui dos objetos quentes para os frios, de modo que, no final, tudo fica com a mesma temperatura. Se você deixar uma xícara de café quente sobre a mesa, por exemplo, ela cede calor ao ambiente. Com o tempo ela esfria e acaba atingindo a temperatura do ambiente.

Se o universo existisse desde sempre, tudo já deveria ter a mesma temperatura a esta altura. No entanto, observamos enormes diferenças de temperatura por todo o universo. Por exemplo, estrelas queimam enquanto o espaço permanece frio, e ainda há movimento e estrutura em todo o universo.

Isso prova que o universo ainda está cheio de energia e ordem e que, portanto, não pode existir desde a eternidade.

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Terceiro ponto: o Big Bang mostra que a energia teve um ponto de partida

A principal explicação científica para a origem do universo afirma que ele emergiu, há cerca de 13,8 bilhões de anos, de um estado extremamente quente e denso. Desde então, o universo se expande e esfria. A energia original transformou-se, ao longo do tempo, em diferentes formas, como matéria e radiação.

Isso confirma, mais uma vez, que o universo deve ter um começo.

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Quarto ponto: a radiação cósmica de fundo em micro-ondas confirma um começo

Uma das provas mais fortes do Big Bang é a radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMB), a radiação remanescente do universo primordial. Hoje, os cientistas medem a temperatura da CMB em cerca de 2,7 graus acima do zero absoluto (Kelvin). À medida que o universo se expande, porém, a CMB esfria.

Isso é importante porque, em um universo infinitamente antigo, não haveria uma CMB com as propriedades observadas nem um resfriamento sistemático. Em vez disso, vemos uma quantidade limitada de energia que restou do passado e que, ao longo do tempo, esfriou e se espalhou. Isso também confirma que o universo não pode ter uma idade eterna.

Podemos, assim, concluir sem qualquer dúvida que o nosso universo deve ter um começo e que, portanto, algo criou o universo a partir do nada.

Se, neste ponto, você perguntar à inteligência artificial, ou também a algumas pessoas, é bem possível que apresentem um dos seguintes contra-argumentos.

1. Uma cadeia infinita de causas

Um contra-argumento diz que não é preciso haver uma primeira causa ou um criador se o nosso universo foi causado por outro universo, que por sua vez foi causado por mais outro universo, e assim por diante, retrocedendo até o infinito.

Experimento mental

Será que isso é possível? Suponhamos que você queira pegar um livro emprestado. Você pede a um amigo um livro sobre elefantes africanos, mas ele precisa primeiro pegá-lo emprestado de outra pessoa. Essa pessoa pergunta a outra, e assim segue sem fim. Se a cadeia nunca termina e ninguém possui de fato o livro, será que ele algum dia chegará às suas mãos?

Evidentemente que não: o livro nunca chegaria até você, embora exista.

Se o universo fizesse parte de uma cadeia infinita de causas e nenhuma dessas causas tivesse um verdadeiro começo, então nunca alcançaríamos o momento presente. Nesse caso, não poderia haver universo algum. Como o universo, porém, existe, sabemos que ele deve ter um começo.

Além disso, uma cadeia infinita de causas não explica por que a cadeia sequer existe. Cada elo depende do anterior, mas nenhum deles consegue explicar por que, afinal, algo existe.

2. Partículas que surgem do “nada”

Alguém poderia dizer que, na física quântica, partículas minúsculas podem surgir de um espaço aparentemente “vazio”. Isso significa que um universo pode, afinal, surgir do nada?

Não. As flutuações quânticas, nas quais partículas parecem surgir e desaparecer, ocorrem dentro do espaço, do tempo, da energia e das leis físicas. Elas se baseiam, portanto, em um fundamento já existente.

Em outras palavras: elas acontecem dentro do universo, e não no nada absoluto. Logo, elas não mostram que o próprio universo poderia ter surgido do nada.

Conclusão

A lógica e a ciência mostram claramente que o universo surgiu em um determinado momento e que, portanto, foi criado por algo. Deve haver, então, algo que não foi causado e que existe, necessariamente, fora do espaço e do tempo.

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